[entre]

erika_jenniferglassha0b1646

essas casas, essas todas pequenas casas que a gente carrega nas costas quando anda na rua ou no deserto, casas de andarilho, em bolsas e mochilas, em caixas e memórias dentro e fora de casa, que a gente abre a porta e deixa o outro entrar

eu tiro os sapatos sempre e piso devagar, não piso nas flores caídas na calçada, essas casas que a gente carrega no peito e quando abre uma de suas janelas escorre um tanto assim de vida, uma lágrima e um sorriso, essas casas onde já morei que tinham livros na estante, em português, japonês, espanhol, inglês, francês, mesmo sabendo falar a língua às vezes sem saber ler tudo isso, que tem livros de figura e de poesia, essas casas que levo comigo na rodoviária, no aeroporto, na estação de trem, sempre um bilhete de embarque marcando uma página da clarice, do caio, do julio, da marguerite, da ana c., uma casa que se pergunta quem eu sou, com um tanto de portas abertas e uma música que toca bem baixinho, quase não se ouve quem canta, quem batuca, se é murmúrio ou sussurro, essa casa que é o corpo de pele fina, even more naked than when we are naked, casa de paredes transparentes, casa da minha própria casa

às vezes peço licença para entrar, mas não em voz muito alta. são os poros que se abrem a partir das palmas das mãos, que simulam uma porta em espaços sem fronteiras. há algo que une e que também separa ao mesmo tempo. como a sola dos pés a beijar o chão enquanto este acarinha a pele dos pés. coisas que se deixam tocar, que se adentram, se espalham e se expandem. as asas nascem a partir daquele buraco no centro do peito e não pelas costas. pode fazer uma tentativa de sincronizar o ensaio dos primeiros voos com a respiração. a pulsação do corpo com a da cidade, o asfalto e as plantas que resistem em musgos e fendas no chão.

membranas invisíveis e móveis que se movem pelo líquido

mucos e secreções que mexem transportam escorrem e e migram

misturam-se a pó

poeira

cinzas

migalhas

pólen

orvalho sobre a terra

aceita um chá? na tradição, é uma tigela por pessoa, mas nessa casa sem portas a tigela é coletiva. os tremores começam porque tem algo à suivre, uma continuação, um próximo. eu não existo só. a afinação de encontrar o tamanho do gole que mata a minha sede e também deixa pra quem vem a seguir.

é sempre um grande terremoto rolar no chão com outros corpos, o fluxo que nasce do encontro.

onde começa uma onda e termina a outra?

*

foto: Jennifer Glass

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